terça-feira, 29 de novembro de 2016

MINHA LUTA COM AS MOSCAS 4

Acordo cedo aos domingos. Faço o café, saio pra comprar pão, sento à mesa com um café quentinho e pão simples passado apenas com margarina (manteiga é coisa nobre, não dá pra mim) e ligo a tv. Assisto aos programas rurais. Primeiro o local, que fala dos costumes e negócios dos interiores do meu estado, em seguida o nacional.

Num desses domingos, no programa nacional vi um caso de morte de gado de grande porte decorrente do ataque de moscas. Algo que se assemelha a filme de ficção científica e filme de horror grotesco sendo que era tudo real.

Criadores estavam perdendo suas vacas leiteiras e touros reprodutores. O gado atacado pelas moscas se sentia inquieto, tangia as moscas com o rabo, mas cansava o membro sem ter sucesso na empreitada, em consequência se estressava, deixava de comer, caia de fraco e ali mesmo falecia sendo comido pelas moscas assassinas.

O mais engraçado para mim foi o relato do programa de como as moscas se proliferaram ao ponto de se tornarem assassinas. 

Uma indústria de cana-de-açúcar despejava o que sobrava da produção, o caldo do caldo ao ar livre, o caldo fermentava virando uma espécie de aguardente de péssima qualidade, as moscas se aglomeravam ali pondo seus ovos que eclodindo aos milhões criavam uma cena de terror para a localidade, tanto gente como para animais.


Seria engraçado se não fosse trágico. A cena me deu a certeza que não é apenas direção e algo que não combina, mas moscas e álcool também não. Moscas bêbadas se tornam assassinas.

MINHA LUTA COM AS MOSCAS 3

Um amigo me receitou a leitura de Graciliano Ramos. Isso aconteceu depois que confidenciei a meu amigo que estou escrevendo um romance e ter dado a ele algumas páginas do primeiro capítulo para ele ler e criticar. Sem crítica de certa forma não se anda e, crítica de amigo é na maioria das vezes sempre bem-vindas.

Usei a palavra receitou, embora tecnicamente um livro não seja um remédio e essa palavra ser própria do mundo dos doutores médicos porque polido como é meu amigo, ele não gostaria de ler um romancista chato, cheio de suspense desnecessário só para agradar o amigo. Se vamos ler, leiamos o que é bom.

Ultimamente as moscas têm tomado muito da minha atenção. Já declarei dias atrás meu ódio a elas, agora por motivo que não sei explicar claramente se apoderou de mim um sentimento inverso, um sentimento de carinho pelas moscas. Achei isso muito estranho e resolvi pedir ajuda a quem tem me dado a alegria de ler meus textos para eu decifrar minha recente afeição pelas moscas.

Não sei se coincidência ou não, o livro que meu amigo me receitou, na página 44, Graciliano (desculpem a intimidade) descreve a cena do ódio da cachorra Baleia pelas moscas. Cito: “Baleia, sob o jirau, coçava-se com os dentes e pegava as moscas. ”

Depois de descrever a atitude da cachorra Baleia para com as moscas a qual não era muito amistosa, Graciliano Ramos descreve a afeição que as moscas em dado momento gozavam de Sinhá Vitória. Cito: “Tudo ali era estável, seguro. O sono de Fabiano, o fogo que estalava, o toque dos chocalhos, até o zumbido das moscas, davam-lhe a sensação de firmeza e repouso. ”


Ora, eu que pensava estar ficando perturbado via agora que não. As moscas têm mesmo o poder de despertar sentimentos diversos em nós. 

MINHA LUTA COM AS MOSCAS 2


Estava lendo no corredor que dá acesso a meu quintal. Dois ou três motivos me levaram até ali. Primeiro, é muito ventilado. Segundo, não gasto energia elétrica para manter um ventilador voltado para mim e para refrescar o ambiente. Terceiro, o fornecimento de energia em minha casa havia sido cortado.

Sentado nua cadeira de madeira numa mesa sem toalha, com alguns livros à minha volta, pus a perna em cima do acento da cadeira e me recostei na parede.

Uma mosca rondava junto a mim apesar do vento forte. Afugentei-a uma e duas vezes, mas sem sucesso, ela voltava. Achou de pousar sobre o meu joelho. Havia escrito uma crônica sobre a inteligência das moscas e sobre minha admiração de como seres tão pequenos nos causam tantas inquietações principalmente quando estamos lendo.

A mosca ali pousada em meu joelho, tive como primeiro pensamento bater para afugentá-la, mas de preferência matá-la.

Olhei repentinamente para ela, era grande, asas com umas riscas, olhos avantajados, quando subitamente fui acometido por um novo pensamento, agora de simpatia pela nojenta. Será que elas pousam em nós, nos irritam, voam bem próximo de nossos narizes com o risco de as sugarmos pelas narinas, fazem zumbido em nossos ouvidos e voltam sempre depois de afugentadas porque são carentes de carinho e atenção?


Respostas, por favor para Rua do Ouvidor, número 100, bairro Mosqueteiro.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

MINHA LUTA COM AS MOSCAS

Todas as criaturas de Deus são inteligentes e úteis. Julgo assim com base no texto bíblico do livro de Gênesis, que é o livro dos começos, que conta a história da criação, que “viu Deus tudo quanto tinha feito e era muito bom.”

Porém, não sei a utilidade das moscas. Entretanto, sei muito bem que elas têm inteligência ou esperteza.

As moscas têm olhos divididos em quadrantes e patas rápidas. Visão e rapidez poderia explicar a inteligência das moscas. Mas membros não trabalham independente de um sistema central nervoso. Precisam de coordenação. Estímulos elétricos. Mas como caber em um corpo tão minúsculo um sistema central tão sofisticado? Passou a ser o novo pensamento que me atordoava.

O sistema nervoso das moscas é tão eficiente que ao menor sinal de que queremos eliminá-las liga o motorzinho e foge, talvez rindo da nossa cara.

Vivo lendo livros. Escolho um lugar para ler. Geralmente é a cama. Tranco a porta do quarto para dar a mim mesmo um isolamento do dos demais ambientes da casa, ligo o ventilador e curto as letras. Todos da casa entendem isso, menos as moscas.

Enquanto leio, elas acham de entrar pelo vão entre meus óculos e meu olho. As enxoto. Não satisfeitas voam tão próximo do meu nariz que prendo a respiração com medo de suga-las pelas narinas.

Depois de certo tempo dedicado inutilmente a afugentá-las me armo com um pedaço de tecido e fico à espera delas. Enquanto estou nesse estado de prontidão as danadas não se aproximam. Solto o tecido achando que resolvi o problema, elas voltam a mil, acho que rindo da minha cara de bobo.


Minha casa não é suja. É limpa regularmente e eu tomo banho regularmente também. Elas não são atraídas por sujeira nenhuma, portanto. Acho que são atraídas pelo instinto de querer tirar a paciência de quem só quer ter um tempo gostoso pra ficar quieto e ler.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

NÃO ADMIRO PÁSSAROS, MAS CRIANÇAS

O voo dos pássaros me fascina. Às vezes paro só para admirá-los. Mas nesses dias que têm chovido aqui em São Gonçalo do Amarante (se você não sabe onde é fica aqui no Ceará) os pássaros ficaram em segundo plano na minha lista de seres que admiro.

O que a chuva tem a ver com minha mudança?

Primeiramente é preciso considerar que pelas bandas do Ceará chove muito pouco, quando chove muda até pensamentos. Estive observando que quando chove os pássaros procuram árvores frondosas para se abrigarem e se escondem da chuva.


Elegi as crianças para ocupar a posição número um na lista de seres que admiro. Essas sim merecem minha admiração. Quando chove vão para as ruas brincar na água, pisar em poça de lama, tomar banho, sentir frio e saborear o prazer da chuva que colore de verde o que estava cinza.

DESENCONTRO COM FÁTIMA BERNARDES

Todos os programas de televisão agora são obrigados a trazer o indicativo da idade para o qual o conteúdo daquele programa é ofensivo.

O programa Encontro com Fátima Bernardes parece necessitar ainda mais desse indicativo.

Ora, um público que socorre um bandido ferido e despreza a polícia se estivesse na mesma circunstância é nocivo a todas idades e pessoas de bem.

Aprendi que nunca o bandido será o mocinho. Não foi à toa que o repórter Caco Barcelos da mesma emissora de Fátima foi expulso da cobertura de uma manifestação contra os desmandos do governo.

Se seu público fosse sincero certamente perceberia que é a polícia que protege a população, dar a vida por ela e ganha muito mal para isso.


Pergunto: o público teria a mesma opinião se o programa fosse do Datena? Do Boechat? E outros que não buscam audiência a qualquer custo?

NARCISISMO SULISTA

Rio Grande do Sul se enforca para pagar as contas e conter a violência
 Endividado há décadas, Estado do Sul não consegue pagar salários dos servidores



Sou nordestino bem-humorado e bem informado. A não muito tempo os sulistas numa festa à moda halloween faziam manifestação pedindo a separação desteS do resto do país. A alegação era de superioridade intelectual e riqueza.

Des(personalidades) como a atriz Alexia Dechamps, acho que é atriz. Nesse quesito não procurei informações, gritava a plenos pulmões que os sulistas pagavam o bolsa-família do nordestino.

Pagam? Como, se há muito anos estão em escala deslizante de falência e agora se comprovou abertamente isso? Não pagam suas contas e querem pagar o bolsa-família!? Não conseguem conter a violência e querem se considerar superiores intelectualmente?

Se alegarem que foram seus gestores que jogaram o estado nessa situação, pergunto: que tipo de inteligência superior é essa que não põe vista a seus gestores?


Desconfio que não foi pagando bolsa-família que chegaram à banca rota, não. Acho que foi pelo narcisismo, cultuando a própria imagem se afogaram na beleza.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

ANTHONY E OS HOSPITAIS PÚBLICOS

Assisti penalizado ao debatimento de Anthony Garotinho dentro de uma ambulância. Com uma artéria entupida, a pressão elevadíssima e um risco iminente de infarto Garotinho protestava contra uma ordem judicial que o mandava ir receber os cuidados médicos em hospital da rede pública.

Depois do choque de ver um político de carreira quase enfartando passei a sentir admiração pela percepção aguçada do ilustre político.

Ele sabia que ir para o hospital público seria uma sentença de invalidez ou até na pior das hipóteses de morte. Ele tão jovem não queria por fim a sua carreira em ramo de atividade humana que muito exige de um trabalhador, a política.

Conseguiu reverter a ordem e foi levado para um hospital da rede particular. Ora, eu não tiro a razão de Garotinho. A bem pouco tempo uma senhora que lutava contra um tipo de câncer teve sua vida ceifada porque no processo várias e várias vezes faltou os medicamentos que certamente lhe devolveriam a saúde.

A rede pública por meio do secretário veio a público se desculpar, mas o que são desculpas quando a vida se vai? Anthony não queria ser vítima de um malvado hospital público do estado onde ele já havia sido governador.

Eu no lugar dele faria drama maior. Mas no meu caso não tem jeito. Ou é hospital público ou a indigência da minha cama.


Mas o que Garotinho temia é que o tratassem do modo como ele tratou o estado de que foi governador e, depois de inválido ou morto (digo ele não o estado porque esse já está mais fedido do que morto há três dias) viessem a público as autoridades apenas para se desculpar como no caso da senhorinha com câncer que negada de cuidados faleceu e recebeu apenas os pedidos de desculpas das autoridades de saúde.

CÉREBRO PRA QUÊ?



Eu sou meio maluco de ficar rolando as setas do computador pra baixo e pra cima e lendo as manchetes de sites que curti no Facebook. Tem coisa legal e tantas e tantas que nem vale à pena gastar minhas retinas pelo brilho da tela do computador lendo.

Mas tem aquela que logo desperta a mente para escrever. Essas dificilmente não me remetem a escrever pensando em um fato ocorrido com alguém ou na minha cidade e com mais certeza no meu país.

Vi uma manchete na página do Facebook de um dos sites de notícia que curto, curto só pra achar curiosidade, que dava conta que o Facebook iria lançar um aplicativo para ajudar a esquecer o/a ex.

Hoje temos aplicativo pra tudo. Mas esse aí me fez lembrar que a moda de hoje é ficar deitado no sofá ou na cama e ter alguém que faça as coisas pra nós. O Facebook sabe disso e ajuda as pessoas a não gastarem seus cérebros. Essa máquina não perfeita e útil.


No fim, parece que com esses aplicativos a cada dia cresce mais o número de pessoas acéfalas. Afinal, cérebro pra quê, se temos aplicativos?

SOCIALITES

Esses dias estive pensando sobre apelidos. Então por curiosidade pesquisei sobre o assunto na net. Se os dicionários são considerados o pai para o saber a internet é a mãe. E você sabe, não é? Na net tem tudo. Se é verdade ou mentira é outra história.

Bom. Um site me informou que esse negócio de reconhecer as pessoas com nome e sobrenome é coisa nova. Antes, as pessoas, especialmente as ricas, eram conhecidas por apelidos. Os reis, por sua vez eram os mais castigados nessa parte.

James II é um dos mais odiados reis da Inglaterra. Como queria derrubar o parlamento ficou conhecido como “James, The Shit”. Traduzindo “James, O Merda”.

Edward I era conhecido como “Edward Longshanks”. Em Português “Eduardo, O Canela Longa”.

A Inglaterra era especialmente cruel quando não gostava de uma pessoa e lhes dava apelidos horrendos. Luís V, rei da França ficou conhecido como Luís, O Preguiçoso, isso por causa de sua falta de iniciativa.

Diferente dos países da Europa que eram cruéis quando davam apelidos para os que não gostavam, os brasileiros fazem exceção. Para os ricos mesmo os que têm comportamentos nocivos dão apelidos pomposos.

Por exemplo, a gente sabe muito bem que os políticos brasileiros são muito corruptos e mesmo assim são apelidados de “Vossa Excelência”. O sujeito não estudou, nunca riscou uma letra num vestibular ou faculdade e porque tem dinheiro é apelidado de “Doutor”. A moça que posa nua para uma revista masculina famosa é apelidada de “artista”. E se for profissional do sexo, mas for com pessoas que pagam bem o apelido é de ”Garota de programa”.

Para os pobres ou não conhecidos na mídia a coisa é muito diferente. É corrupto, mas não é político é bandido, ladrão, salafrário. Se a moça sai com um e com outro e ganha uns trocadinhos é puta, rapariga, piranha e vadia se expõe fotos peladas na net, já que não vai para as revistas masculinas da vida. Com os que tem dinheiro e nunca estudaram, a coisa é diferente, porque dinheiro compra título e respeito (nem importa a origem) ainda assim são “doutores”.

Meus amigos eu fui surpreendido com um apelido intrigante. Socialite. O que é isso? É a mulher de um ricaço, prefeito ou governador ou outra personalidade qualquer que por falta de ter o que fazer, resolve não fazer nada, mas faz nada de forma tão convincente que sua inutilidade é digna de destaque em jornais locais e em revistas bem conceituadas e sérias.

Se fosse pobre seria desocupada, vagabunda, do lar e por aí vai.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

LUGAR DE JUMENTO É EM PAÍS DE PRIMEIRO MUNDO

Foi noticiado que a China quer importar do Brasil um milhão de jumentos por ano. Essa é uma notícia muito alegre.

Primeiro, porque os jumentos que só andam na carroceria de caminhões quando são apreendidos soltos no meio das estradas oferecendo perigo aos motoristas e sofrendo eles mesmos risco de serem atropelados e mortos, agora vão andar de avião.

Segundo, porque o Brasil vai se livrar de um milhão de jumentos que pra nós hoje têm pouca serventia depois que o homem do campo, o matuto, tange o gado no lombo de motos e não mais usa os bichinhos e cozinha a gás e não mais a lenha e tem água na porta de casa sem precisar andar quilômetros para apanhá-la e apanha o coletivo para ir onde quer.

A minha esperança é que a situação brasileira mude para melhor principalmente porque ano que vem é ano de eleição e os jumentos têm causado muitos problemas para a nação. As autoridades não estão sabendo resolver o problema. Jumento solto acaba se transformando numa praga.

Recentemente foi feito uma pesquisa querendo saber se os brasileiros aprovariam comer carne de jumento. A população brasileira se mostrou muito sentimental e respondeu que não comeria carne de jumento. Talvez se lembrando da música cantada por Luiz Gonzaga que dizia que o jumento é nosso irmão. Assim não dá. Comer a carne de um irmão nem que eu estivesse nas ânsias da morte por causa da fome.

Eu não sei o que a China vai fazer com estes jumentos, mas eu acredito que o Brasil vai ficar muito melhor. Tem muito jumento solto que na verdade deveria estar preso. Tem muito jumento causando problema ao país.

Quando o governo militar queria se livrar de um problema deportava pessoas inteligentes, engajadas socialmente. Intelectuais foram deportados, exilados em países diferentes como forma de resolver um problema no governo da ditadura. Essas pessoas faziam falta ao país, mas jumentos não farão falta, especialmente porque a China é um país de primeiro mundo e dará bom destino aos jumentos brasileiros.

Deus queira que dê certo. O país vai ficar bem melhor. Tenho até esperança que estes jumentos um dia retornem quando os chineses os tiverem transformado em puro sangue e deixem de causar problema para o Brasil.


Obrigado China.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O PROCESSO CRIATIVO DA LITERATURA

Erguer um monumento que fale por nós enquanto estamos calados ou mesmo produzindo a argamassa para fazer crescer o monumento que estamos erigindo; a vela mantida acesa, a vela que foi moldada para se ter sempre uma luz acesa na casa, nas casas, para afugentar a escuridão e enquanto ela queima labutamos em produzir a parafina para a medida que se consome seu corpo seja depois engrossado para continuar queimando e alumiando o que precisa de luz, e tudo precisa de luz, tem sempre um canto escuro obscuro, carente de lume; a panela no fogo fervendo a água para uma apetitosa, ou se não apetitosa pelo menos necessária refeição e enquanto o fogo amolece o alimento e mistura os temperos forjando sabores colher o que se mais pode acrescentar á panela ao lume, para nunca faltar comida ao faminto, pois todos têm fome, ou se não fome carência de nutrientes essenciais para o corpo e mente saudáveis; pesar a ferida , limpá-la , arejá-la e enquanto se administra os cuidados essenciais ao aflito seguir ardorosamente na pesquisa de outros emplastros e remédios até que a cura final venha e ela virá, pois não há mundo sem dono, mesmo o que estamos, fora de seu projeto original e por isso cheio de torturas em suas formas terá aplanamento, nivelamento proporcionando o bem; um monumento deve se manter erguido falando por nós enquanto pelejamos, não se pode deixar espaço para o silêncio ocioso, não se pode calar; embora calado deve se ter uma voz, uma luz, uma panela preparando o necessário alimento pois todos e tudo sempre precisam de cuidados; arar a terra para o plantio e quando esta pronta, abrir a cova e lançar nela a semente  e enquanto esta morre para nascer e crescer trabalharmos noutras covas para plantar a semente do que virá a ser o de que comer dos famintos pois tem sempre quem sofra de fome ou tenha carências essenciais que lhe escurece os olhos provoca vertigens tonturas que faz perder o prumo e o rumo; não parar, não se pode parar; dar a tarefa e explicar a feitura  dela e enquanto isso laborar na oficina confeccionando outras lições, pois sempre há quem precise de refinamento, orientação, direcionamento; defender a cidade e uma vez a batalha do dia ter sido ganha, afiar arma para outras que virão pois parar é ficar suscetível ao fracasso e ao aprisionamento  ou morte; cavar o poço em busca da água viva, fria, refrescante proteger o poço encontrado do sol escaldante e cavar novos reservatórios para se ter sempre água em reserva porque sempre haverá sedentos e água é essencial, não se pode parar de procurar, armazená-la , não se pode parar; manter algo que fale por nós enquanto planejamos como melhorar o que já erigimos pois não se pode parar, parar é impensável e transgressão da lei da criação, a lei ordena tudo nesse mundo, mas há sempre os que transgridem e desarrumam a ordem, é preciso erguer um monumento que fale por nós enquanto calados planejamos tarefas para sempre melhorar o que já há; os literatos sempre foram incansáveis , os que na labuta da literatura semeavam a virtude e os que não eram incansáveis, os pregadores das boas novas não se deram folga e quando não podiam falar e antes de dormirem registraram tudo para a posteridade; a natureza, o monumento de Deus ao mundo fala dele enquanto ele escreve e reescreve suas leis nos corações que sempre tendem a se desgarrar; nunca se pode parar; preparar uma geração dando a esta escritos e orientação para erguer seus monumentos que fale o essencial quando seus entes começarem a faltar; a lavoura é grande e o trabalho deve ser incansável; ler, ler tudo o que a vista tem para ler, ler como o cão faminto que às pressas devora sua ração por medo de o outro tão faminto quanto ele roubá-lo; e escrever e pensar, sempre há no que se ocupar o pensamento e o pensamento necessita ser registrado, não se pode engavetar o pensamento, o pensamento é semente e semente foi feita para germinar e quando muito tiver sido feito ainda haverá o que se fazer como disse o Eclesiastes: não há limite para fazer-se livros e se tudo é vaidade como noutra hora disse o mesmo Eclesiastes há de se excetuar o pensar e o registrar, há papel e tinta e quando estes não mais houverem procurar os muros, as árvores, o chão e outros meios para se registrar o pensamento, não se pode parar; e se quiserem queimar os livros, o fogo se extinguirá pelo peso do que foi registrado, os assassinos desistirão da tarefa, é preciso fazer livros para apagar o fogo; e se proibirem o pensamento o muito que já foi pensado continuará a se disseminar, é preciso não parar, há sempre o que fazer; e ler, porque ler é levantar um brinde a quem produz monumentos eternos, ler é comer e beber o pensamento, ler é se preparar para produzir  e produzir é o que se espera que façamos sempre, é trabalho sem descanso sempre; o pregador além de sábio ainda ensinou ao povo conhecimento, procurou achar palavras agradáveis e escrever com retidão a verdade, as palavras do sábio são como aguilhões e como pregos bem fixados, não há limite para se fazer livros, não há limite para se pensar, erguer monumentos que fale por nós enquanto aprontamos seu crescimento é o imperativo.

NÉVOA NAS LENTES DOS MEUS ÓCULOS.

Saia de uma repartição pública e o contraste do ar frio do aparelho de ar condicionado com o ar ambiente, um pouco quente, criou uma película sobre as lentes de meus óculos. Tirei o óculos e limpei as lentes.

Isso bem poderia ser um início de um romance, mas não é. Não tenho capacidade para tanto. Ao contrário minha mente foi despertada para o sentido da utilidade das coisas e das deficiências. Escrever sobre a utilidade das coisas é feitio de textos técnicos de filosofia, mas também não sou filósofo propriamente. No caso de ter uma lição meu texto, não posso chamá-lo propriamente de crônica. Mas invento aqui uma crônica aleijada para expor a lição da minha meditação.

Minha deficiência visual que me obriga a usar óculos de modo que agora somente de óculos posso enxergar ao longe ou ao perto me mostrou o valor dessa deficiência para a vida. Tirar os óculos me ajuda a selecionar o que quero ver e isso é um ato muito importante para se viver a vida.

Mas não quero fazer disso um escape, mas a valorização do meu tempo e o guardar das minhas forças para embates interessantes. As deficiências têm seu valor.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

DESALENTO DE UM PEDINTE

O rapaz maltrapilho ingressou no ônibus pela porta da frente porque se pagasse a passagem ficaria sem a esmola que até aquela hora do dia havia amealhado. O motorista lhe deu a esmola em forma de permitir seu ingresso pela porta da frente do coletivo.

Dirigindo-se aos passageiros dizia o rapaz: senhoras e senhores, eu poderia estar roubando, me prostituindo, mas não posso mais porque os políticos da minha nação dominaram o mercado todo. Agora só me resta pedir.

Consternados com a criminosa concorrência os passageiros abriram suas carteiras e deram cada um uma moeda ao pobre pedinte.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ADMIRO TRUMP COM ADMIRAÇÃO DE FÃ

Donald Trump me causou uma forte impressão. Impressão positiva.

Dito isso e, se fosse possível eu ouvir, ouviria nesse momento o coro de vaias que acabei de receber tão forte com o som que saia das turbinas de um jato supersônico. Aceito as vaias, pois de leitor se espera tudo, mas antes deixem eu me explicar.

Trump fez a sua campanha baseada toda ela em declarações antipáticas e muitas que beiravam o preconceito ou eram de fato preconceituosas. O rico empresário falou abertamente contra potências como a Rússia e China usando o mesmo tom ameaçador que elas usam quando falam os o mundo e com os USA. Trump não escondeu em momento algum suas opiniões. E para ele o que importa é mesmo os USA. Outros são outros e só como diz certa a música.

Mas foi justamente isso o que me fascinou em Trump. Sua clareza. Ele pode até mudar e, vai mudar, mas quem o elegeu sabia claramente de suas intenções desde o início.

Essa mesma boa impressão não tenho dos políticos brasileiros. Nem da candidata derrotada Hillary Clinton. De Trump o mundo pode se defender, pois já conhecem suas patifarias previamente, driblar suas ações, entrar na justiça contra ele, enfim, tomar medidas pensadas.

Os políticos brasileiros por sua vez são eleitos escondendo o jogo. Os reais interesses que têm ao se aventurar a deter o poder. Como diz um ditado popular: é muito difícil se defender da covardia.


Os senhores que me vaiaram agora entendem meu fascínio por Trump?

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Vida longa aos reis da terra brasilis

Quando na Europa os reis começaram a engordar, o povo a guilhotina iniciou por afiar. A cabeça gorda do rei rolou e o povo comemorou.

Penso que o povo brasileiro não tem entre si artesãos capazes de forjar guilhotinas necessárias; ou então estão forjando a fogo muito brando e malhando o fio quase a frio. Malhar a ferro frio não faz o trabalho render. O que me faz pensar também que o povo brasileiro não é capaz de forjar boas guilhotinas é que a cabeça dos reis de nossa nação continua gordas e rosadas.

O barulho vindo das festas dadas pelos reis para seus páreas e para eles mesmos se regalarem, talvez esteja ensurdecendo o ouvido do povo que não consegue se comunicar um com o outro e seguem suas vidinhas rumo ao pasto onde pastam os animais do campo.

Mas minha preocupação meus amigos não é com o povo. O povo que se dane! Minha preocupação é com a saúde dos reis da minha terra brasilis.

Ora, amigos vejam um belo exemplo dos riscos a que esses reis têm submetido a eles mesmos.
Num dos reinos de nossa terra, o reino do rio de Janeiro onde não há mais dinheiro para pagar o salário do povo, dinheiro para os hospitais que atendem o povo, para a segurança para garantir a ida e a vinda do povo, o reino mais quebrado dos pequenos reinos de nossa terra, foi dado só este ano 88 coquetéis e pelo 1 almoço por anos sendo este já o décimo primeiro mês do ano.

Amigos vejam se minha preocupação não é justa. Vai lá que comendo desse jeito e festejando desse jeito um de nossos necessários reis morre. Deus os livre e a mim também.

O povo? O povo que se lixe! Salve os reis desta terra!



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A Crônica, o Cronista e a Língua do Povo

A gente, escritor, não inventa nada. Talvez a gente possa até dar uma exageradazinha.

As pessoas se veem nas histórias que os escritores escrevem e aí querem matar o pobre do escritor porque acham que estamos falando delas. Não estamos. É que como somos cheios de imperfeição tantas vezes podemos nos ver nos escritos do escritor que também não é perfeito.  Fique com raiva não. Somos gente do bem. Você é que está lendo um retrato de sua imperfeição. Talvez aquele seja mesmo  o próprio escritor, mas como cometemos erros parecidos você pensa que é você.

Todo mundo deveria ficar de olho aberto com escritor, principalmente escritor de crônicas porque nada escapa ao seu olho. Não. Não. Ele não é vingativo. O cronista apenas dá um depoimento de fatos que as pessoas acham banais e sem graça, mas que na visão do cronista vira uma história. Mas, concordo, cronista não merece confiança. Um cara que se presta a falar da vida dos outros não pode merecer confiança mesmo. Mesmo que não minta. Só exagere.

Mas tem graça escrever sobre a forma das pedras? Ou de quantas vezes a vaca rumina? Falar de coisas que não têm vida é sem graça ou falar de coisa que tem vida, mas que não é vida de verdade, como a vida da vaca que rumina não tem graça nenhuma. Graça mesmo tem o ser humano.

No dia que o escritor falar da pedra vai ser porque a pedra caiu na cabeça de alguém ou alguém pegou as pedras que lhe atiraram e fez um forte muro de proteção pra si. E se o cronista falar da vaca vai ser porque ela que tem vida, mas não é vida de verdade virou um belo churrasco que pessoas comeram sentadas ao redor de uma mesa e porque estavam felizes porque comeram (e quem come um churrasco toma uma cervejinha) aprontou algumas e deu pano pra mangas para o cronista fazer uma história.


Mas o escritor, especialmente o cronista também cria, perdão, cria não, escreve histórias reais de pessoas que fazem coisas boas. Mas quando o cronista escreveu sobre coisas boas todo mundo que lê faz questão de dizer que aquela história é sobre a vida dele ou sobre ele em algum dia bom que viveu.

A Lição dos Desenhos Animados

Desenho animado é uma sacada tão fascinante que até adulto gosta. Eu assisto desenho até hoje. Recentemente assisti um episódio do desenho Kick Buttowski em que o Kick foi desafiado por um chatinho metido a intelectual para uma disputa de soletração. O diretor da escola do Buttowski sem opção de alunos porque todos se pelavam de medo do chatinho fugiram. Aí o diretor não teve outra opção se não aceitar o Kick.

O diretor começou com seu método de ensino tradicional. Soletrava uma palavra para o Kick e pedia ao menino que repetisse em seguida. O Kick errava. Fazia de novo. O Kick errava. Dezenas e dezenas de vezes o Kick errava.

O diretor desencantado ia desistir quando o Kick disse algo: __ eu só aprendo fazendo. Como assim? Perguntou o catedrático. Kick pegou sua bike, seu skate, sua bola e levou o diretor pelas ruas, alto dos montes, roda gigante, ginásio de esporte e enquanto fazia suas peripécias o diretor dizia a palavra e o Kick soletrava em seguida. O Kick descendo e subindo repetia certinho as palavras.

Chegou o dia do desafio. O Kick via aluno a aluno sendo derrotado no ginásio onde estava se travando a disputa. O diretor apostava que o Kick era o próximo a ser eliminado. Chegou a vez do “projeto de dublê” (Kick Buttowski). O chatinho tentou intimidar o Kick. Kick começou a fazer seu malabarismo depois de cada palavra que era exigida que ele soletrasse e acertava. O chatinho também acertava. Na última o chatinho sucumbiu e o Kick emergiu vitorioso.

Moral da história do desenho de Kick Buttouwski - Um Projeto de Dublê: as pessoas têm jeitos diferentes de aprender. Descubra para ensinar.

Outro desenho que assisti por toda a minha infância e que vim a entender sua mensagem depois de grande foi A Turma do Scooby Doo. Nesse clássico Scooby e sua turma eram chamados para descobrir o mistério que assombrava uma cidade. Scooby e Salsicha eram os medrosos. Fred o líder que mantinha a turma unida e fazia os projetos acontecerem. Daphne era só a bonitinha da turma. Velma era intelectual que raciocinava juntando as pistas para chegar a decifrar o mistério. Todos juntos faziam o sucesso do trabalho. Está aí a primeira moral do desenho: trabalho em equipe sempre leva a grandes resultados.



A segunda moral é a de que os monstros são sempre pessoas amarguradas e invejosas. Quando a equipe desmascarava o falso fantasma ou monstro eles se queixavam de que alguém lhes roubou algo ou queriam fazer algo de que eles não eram a favor. Preferiam expulsar a todos e manter a cidade atrasada a ter que abrir mão de algo em prol de um bem maior.

EM OUTRAS PALAVRAS

Devemos sempre nos preocupar com comunicar bem as coisas. Falar simples. Um professor que tive disse que devemos falar de modo a que o aluno de 5º ano entenda como também o formando, o mestrando, o doutorando e o ocupante de uma cadeira da Academia Brasileira de letras.

Tive uma lição disso na prática quando encontrei um amigo meu muito prático em sua maneira de traduzir o que houve. Encontrei-o no corredor do hospital onde meu filho estava internado se recuperando depois da cirurgia.

Disse ao meu amigo que estava ali porque meu filho havia sofrido uma cirurgia de fimose. Fimose é o estreitamento do orifício do prepúcio, que torna impossível puxá-lo para trás por sobre a glande do pênis.

Meu amigo traduziu a coisa “Ah, eu sei. Isso dói pra cacete! Fimose é arrancar o chapéu do pau.

Existe alguém mais prático que meu amigo?


Black tie

Gosto de tudo preto no branco. Parece que assim as coisas ficam mais simples. Mais fáceis. Mais digeríveis.  Aliás, quando vi minha esposa pela primeira vez ela usava black-tie. Numa saia preta de pala alta e blusa de seda branca em mangas, nós dois debaixo da luz de um poste numa rua temerosamente solitária. Entendi o recado. Defini a situação (definimos, para não parecer tão machista). Um beijo roubado e depois compartilhado. Como diria o bispo com fala grave de malandro: __ meu amigo, minha amiga: vê se não complica.


Deixei tudo preto no branco. Vivo querendo tudo preto no branco. 

O Caso das Minhas Vermes

Hoje fui à farmácia. Fazia muito tempo já que não tomava remédio para vermes. Remédio pra vermes não. Remédio contra vermes. Vermes, sabe? Aquelas cobrinhas que enchem a barriga da gente sugando tudo o que a gente come, deixando a gente fraco, amarelo de anêmico, com mais preguiça do que o trabalho já dá na gente.

Falei que queria remédio pra vermes. O farmacêutico, meu amigo, já havia me vendido uma remessa antes. Então só cheguei lá e pedi remédio pra verme. Lá vem ele com uma única caixa custando R$ 67,00 e me dizendo que era muito eficaz.

Estranhei o preço e, falei que queria aquela quantidade toda que ele me vendeu anteriormente e, que fez muito efeito e, que só tinha me custado R$ 12,00. Aí ele ficou no meio termo. Trouxe quatro caixas que me custou R$ 22,00 e me deu um desconto de R$ 2,00.


Se eu não falo ele ia valorizar demais minhas vermes, lombriga como a gente chama aqui no Ceará. Quando eu era menino a gente botava pra fora com mamão verde e açúcar, mas a modernidade valoriza até verme.

Saindo de casa

Pronto! Vamos!

O celular está carregado.  O laptop está carregado. O sorriso está carregado. Espero que dure o dia todo, mas se não durar espero que hajam pessoas, assuntos, motivos para eu recarregar meu sorriso para o dia todo.

Vamos pessoal! Todo mundo dizendo que eu sou o lesado, o esquecido, o isso o aquilo, mas estou pronto desde cedo. Cadê a chave do carro? Tá pronto é?! Tá falando bobagem. Só falta isso.

Fecharam a janela? Apagaram as luzes? Baixaram a chave do botijão? Colocaram as panelas na geladeira? Ei, espera aí… Alguém sabe onde está o documento do carro? Ah, meu Deus! Ele de novo com os esquecimentos de sempre. E é porque estava pronto antes de todo mundo.

Vão à…! Depois de eu ter feito um monte de coisas sozinho vocês ainda vêm encher o saco!

Pronto! Vamos. Agora sem estresse.


Ah, droga! Esqueci o carregador do celular Em cima do sofá!

CHUVA É FARTURA, ALEGRIA E DIVERSIDADE.

Ontem estava aqui em casa observando aqueles sapinhos brancos pegajosos, adolescente que resolvem se hospedar na sua pia da cozinha, nas paredes frias do banheiro e que quando você menos espera eles saltam em cima de você dando um susto do cacete.

Eles aparecem aos montes em períodos de chuva. Os besouros correm para a luz quando a chuva esfria o tempo.

O sapinho subia as paredes de minha cozinha espreitando os besouros que corriam para se aquecer na luz acesa. O sapinho se fez de morto, depois deu uma andadinha e abocanhou um besourão.

O besouro era tão grande que se remexeu na boca do sapinho que foi obrigado a cuspi-lo fora.

O sapinho não se deu por vencido. Se fez de morto de novo, deu uma andadinha, duas, três e tascou a língua grudenta noutro besouro, dessa vez pequeno, e não satisfeito partiu para outro.


Deu uma andadinha mais, se fez de morto de novo, deu outra andadinha e abocanhou outro e outro e outro. Depois se recolheu à minha pia novamente. Daqui um tempo vai pular em mim de novo e dar um susto daqueles, o desgraçado, dessa vez mais gordo. E tudo por causa da chuva que traz fartura e diversidade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ADEUS MEDO DA VELHICE

Por algum tempo eu ficava me imaginando mais velho e batia um medo tremendo. Olhava para meu pai e admirava seus cabelos brancos e pele enrugada e me encantava com seu saber colhido nos jardins da vida, mas apesar disso me batia um medo.

Meu pai era do tipo que se o víssemos de dez em dez anos diríamos: ___ “seu Luiz Flor, o senhor parece que está guardado no formol.” Mas mesmo assim batia um medo.

Verdade que com a velhice vem a sabedoria, mas pensava, será que não dá pra ficar um pouco mais sábio novo não? Dá. Um pouco dá. Mas o passar dos anos depura o saber e o transforma em sabedoria.

É justamente na velhice que precisamos muito mais de sabedoria para encurtar os caminhos já que a força vai se definhando.

Mas foi de uns tempos pra cá, quando os cabelos brancos ficaram mais visíveis, que comecei a perder o medo da velhice. Será que porque é inevitável? Talvez. Mas porque vejo todos os dias notícias dando conta de que acharam coisas de centenas de anos e dedicam toda atenção a elas destinando equipes para estudos, museus para guardar estas relíquias, páginas de jornal importante tratando dos achados, seguros caríssimos para evitar danos a esses achados que Perdi o medo de envelhecer.


Bem-vindos cabelos brancos

UM ENCANTO E UMA CERTEZA NA ESCURIDÃO


Eu que sou avesso ao escuro vi beleza quando se apagou a luz. Um blackout.  A beleza que não se vê quando a luz está. Um manto escuro de calda longa foi como vi o céu. A lua donzela dependurada a desfilar sua luz amarela suave. A vastidão adornada de olhos brilhantes com seu azul suave. O soberano do dia escondido em algum lugar. Calmo. Descansando. Esperando paciente seu nascer. A luz apagou e vi a beleza das conversas nas calçadas. Ao pé dos portões das casas. Nas esquinas. Alguns estenderam a rede na varanda e embalaram prosas doces, suaves, descompromissadas. As casas e os carros e a tv perderam a cor e as pessoas ganharam. Quando a luz apagou vi o manto escuro suspenso no ar e tive mais uma vez a certeza de que Deus estava lá sorrindo para mim. Velando como um pai a sua criança.

A luz voltou.


Todos se dispersaram. 

COMO MEU PAI NÃO GOSTO DE GRAVATAS

Meu pai nunca usou gravatas. Eu usei algumas vezes, mas fiquei muito desconfortável. Gravata não é só um pedaço de pano que nos prendem no pescoço. Na verdade, é um utensílio de prender e meu pai não gostava de ficar preso, gostava da liberdade, se sentir à vontade, de ser dono da situação.

Gostava de sentir o vento entrando pelo colarinho da camisa, pelas mangas da camisa e noutras horas pelas casas dos botões.

Meu pai não entrava em loja de gravatas e comumente meu pai também não usava sapatos. Ele gostava de sentir o vento soprar seus dedos por entre as tiras de suas sandálias de couro de rabicho.


Meu pai gostava de pôr a cadeira do lado de fora da casa e sentar-se, sentir o vento soprar seu rosto, gostava da cara ao vento de dizer para os que passavam suas tiradas bem-humoradas, cheias de duplos sentidos. Quem quiser que pegasse pra si o sentido que quisesse.

FILA DE PRIORIDADE

Vou ao supermercado com frequência. O que mais me irrita é pegar fila. Pega-se fila pra tudo. Fila é um pé no saco. Ainda tem o tal do caixa rápido que só atende pessoas com no máximo dez itens. Mas parece que a atendente é programada pra trabalhar tão lenta que dá vontade de pegar a fila dos caixas normais, os “caixas devagar”.

Numa dessas vezes que eu estava no supermercado já de saco cheio de estar na fila e ela não andar, aparece pra cortar a fila um senhor de uns sessenta e cinco anos. Tenho respeito por essas pessoas, elas merecem prioridade, eu quando estiver com essa idade quero ter prioridade em filas, mas fila é um lugar tão nojento que faz a gente até desejar que a pessoa de sessenta e cinco anos tenha prioridade em qualquer lugar menos em fila.

O senhor de sessenta e cinco anos, gordo além do peso, cheio de manchas de má circulação, respirando cansado, puxando de uma perna e cheio de varizes passou na frente de todo mundo com um maço de cigarros na mão, ignorou os avisos de perigo a saúde no maço, acendeu um e saiu.


Este sabe gozar da prioridade de cortar caminho na vida.

UM ESTRANHO ENTRE OUTROS

Minha esposa tinha ido pra casada mãe e levou meu filho. Meu filho do meio saiu pros seus compromissos e o casado… Bem. O casado estava em sua casa.

A solidão da casa tinha ficado meio tediosa, então resolvi sair. Levei um livro comigo. Um livro de contos que estava lendo. Passei na praça, abri o livro e li alguns contos. Fechei. Olhei pro nada. Sai e fui jantar numa vendazinha bem ali perto da lagoa.

Pedi uma canja. Melhor do que fazer comida em casa. Pedi pão com a canja e fiquei ali comendo e lendo. Todo mundo que estava ali, acompanhados de seus filhos e mulheres e amigos tinham seus celulares e escreviam e de vez em quando diziam alguma coisa.


Eu lia e sorria. Os contos eram engraçados. O povo notou e acho que pensavam que era meio maluco. Ora, não era pra menos. Um ambiente cheio de gente teclando seus celulares e eu ali no canto lendo e sorrindo só podia ser tido como doido mesmo.