sexta-feira, 28 de julho de 2017

A Festa do porco

Acabei de ler uma crônica de Rubem Braga sobre a morte do carneiro que virou buchada e logo me lembrei da morte do porco que a cada seis ou sete meses acontecia lá em casa. A rima não foi de propósito.
Ler é como antigamente a gente fazia, sentava na calçada e numa roda conversávamos horas a fio e uma conversa levava a outra. Leio uma história e logo minha mente me transporta a outra.
O erudito besta vai dizer que o que eu estou a fazer é um intertexto e que eu devo ter cuidado com os plágios. Vão se danar seus intrometidos!
Mas voltando ao Braga, percebam a intimidade, é que de tanto ler o Rubem já me fiz chegado.
Tá enrolando demais, você já deve estar dizendo. Calma. Eu chego lá.
Meu avô criava porcos no quintal. Ele os engordava com sobras de comida e rama de batata. Eu enchia a paciência do porco jogando tudo o que eu achasse que o porco podia comer.
Seis meses depois meu avô dava uma olhada e via se o porco estava bem.  Bem pra meu avô era se o porco estava gordo o bastante para o abate. Fazia um carinho no bicho e um elogio e marcava a viagem do bichão que em nada mais lembrava aquele que havia chegado, exceto que era um porco.
A morte do porco era uma festa pra mim. Meu avô dizia que amanhã era dia de acordar cedo. Ainda com escuro.  Não entendia isso. Será que era para o porco ainda meio sonolento não demorar a partir?
Esse questionamento estava dentro de mim, mas não o fazia em palavras. Estou fazendo agora depois de cabelos brancos.  Mas estava na minha alma de menino.
Eu dormia com a expectativa da festa. Dia seguinte acordava meio atrasado. O porco já estava morto.  Acho que essa parte da festa meu avô não fazia questão que eu visse. Mas rapar o pelo do porco, empurrar a faca para abrir o porco em bandas, arrancar fora os intestinos e o coração do porco, pendurar a carcaça num gancho e com a ajuda de um machado esquartejar mais ainda o aniversariante até ai era permitido.
Ainda o porco sendo esquartejado, o fígado e as tripas já estavam cozinhando numa panela e nós fazendo a festa ouvindo os estalos do torresmo no fogo e comendo já os prontos. Do começo ao fim o porco só proporcionava alegrias.

Essa história me lembrou outra. Mas a outra conto noutra crônica ou plagio se você preferir.

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