segunda-feira, 31 de julho de 2017

O Neguinho

Temos abandonado alguns bons costumes que fazem a vida saudável. E isso em nome da modernidade. Conversar na calçada é um destes bons hábitos. E abandonamos essa prática desestressante por causa da televisão com suas novelas que agora se multiplicam sem intervalo e também pelas telas dos computadores e celulares consultando as redes em busca da vida dos outros.

É claro que a violência também tem sido um dos fatores negativos a nos tirar das calçadas. Assaltos, balas perdidas e outros sinistros, porque o crime se reinventa a cada momento. Esses fatores são típicos de um país onde falta educação, ensino religioso e o abandono do Estado a seus cidadãos é visível. Do Estado cujos representantes só diferem tantas vezes dos bandidos comuns porque vestem paletós esperamos muito e temos pouco. Concordemos também que hoje em dia a vida tem sido um tanto corrida. Trabalhamos mais para ganhar o que já ganhávamos. 

Tudo isso somado tem nos feito não sairmos de nossos alojamentos para uma conversa agradável com os vizinhos na calçada. Há outros motivos também, mas se eu ficar aqui enumerando-os a crônica não progride. E não tem situação pior para um leitor do que um cronista que divaga demais. Então vamos lá.

Eu leio muito. Ler é prazeroso, mas cansa. Ler também é uma atividade solitária. Chega mesmo uma hora em que a gente precisa sair pra vê gente. Num desses prazerosos dias de leitura, cansado, sai para a calçada e lá estava meu amigo Chico.

Chico é homem honrado. Honesto. Amigo que está sempre presente na vida dos amigos quando estes estão em dificuldades. Prestativo. Já sofreu uma penca de anos com o alcoolismo. Mas se curou com a ajuda da família, dos amigos e de sua força de vontade. Um pouco antes Chico havia perdido o casamento, mas manteve as responsabilidades para com os filhos e uma amizade relativa com a ex. Esse percalço não desqualifica Chico como um homem de bem. Chico ainda é uma pessoa bem recomendada para o trabalho de motorista em cuja função não lhe falta experiência. Faltou pouco para pilotar um avião. De resto, já guiou tudo.

Chico só tem um defeito: sua cor.

Antes que o senhor leitor me critique me taxando de racista imbecil atrasado filhodeumaputa, quero deixar claro que essa não é a minha avaliação de Chico. 

Enquanto conversávamos na calçada, Chico me falava que sua família tem posses suficientes para uma vida tranquila, sua família tem nome, são honrados e nada devem às demais. Falando isso Chico passou a mão por todo o corpo e disse: só tenho essa corzinha meio assim.

Poxa Chico,


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